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O professor que matou e jogou a família no poço

 - ATENÇÃO, os fatos descritos nesta série de artigos seguem pesquisas apuradas na internet, tendo como base de dados reportagens da época, investigações policiais e denúncias do Ministério Público, e podem incomodar os leitores mais sensíveis –


- Ediwilson dos Santos –

 

                 A rejeição a um namoro pode ter sido o motivo para o fim trágico de uma mãe e seus três filhos na crescente e conservadora São Paulo da primeira metade do século 20. O “crime do poço” foi mais um dos casos policiais que abalaram o Brasil inteiro e completou em novembro 74 anos ainda envolto na dúvida do real motivo para a brutalidade ocorrida.

                Paulo Ferreira Camargo, de 26 anos, era um jovem químico e professor da prestigiada Universidade de São Paulo (USP). Homem de poucas palavras, conservava um ciclo seleto de amigos no trabalho. Morava com a mãe, Benedita Ferreira de Camargo, de 56 anos, e as irmãs Maria Antonieta, 23, e Cordélia, 19, na casa de número 104 da rua Santo Antônio, no centro da Capital. O pai havia morrido quando Paulo ainda era adolescente e este se viu obrigado a se transformar no arrimo da família.

                Os Ferreira Camargo eram a perfeita classe média paulistana: trabalhadora e conservadora, principalmente a mãe, que era zelosa pela “honra” ao extremo. Além de Paulo, a caçula Cordélia também tinha emprego. Era datilógrafa na secretaria da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP.

                A vida pacata da família foi abalada quando Paulo conheceu a assistente de enfermagem Isaltina dos Amaros, 23 anos. A rejeição da mãe e das irmãs pela namorada dele começou depois que elas souberam que Isaltina já não era mais virgem, fato que para a conservadoríssima dona Benedita era inaceitável.

               

O PLANEJAMENTO

                Cansado das discussões com a mãe e as irmãs, Paulo começou a planejar a morte delas para viver livre o seu amor. Passou a realizar pesquisas de acústica e balística, chegando até a disparar tiro dentro do laboratório da USP. Questionado, ele alegou que estava analisando a dispersão da pólvora após o disparo de arma de fogo.

Fez também análises químicas sobre como corroer rapidamente um corpo humano, consultando, inclusive, o seu tutor científico na USP sobre o assunto. Por fim, Paulo mandou construir um poço no quintal da sua casa. Para não levantar suspeitar dos perfuradores, nem da própria família, ele deu a desculpa de que iniciaria um negócio com adubos orgânicos e que, para tanto, necessitava do poço.

 

O CRIME

Na manhã do dia 4 de novembro de 1948, uma quinta-feira, Paulo Ferreira Camargo matou a mãe com dois tiros nas costas e executou a irmã Maria Antonieta com outros três tiros: um na nuca e dois nas costas. Ele recarregou o revólver e, então, aguardou a caçula chegar do trabalho para almoçar. Por volta das 12h, Cordélia entrou em casa e foi assassinada com um tiro na nuca e outro nas costas.

Paulo cobriu as cabeças das suas vítimas com pano preto, jogou os corpos no poço e o aterrou. À noite, segundo especulações dos jornais da época, o assassino levou a sua namorada, Isaltina, para dormir com ele na casa onde, horas antes, cometera crime tão bárbaro.

 

RASTROS E DESFECHO

                Apesar do planejamento meticuloso, Paulo deixou rastros do seu crime. No dia após o triplo homicídio, ele telefonou para alguns amigos dizendo que junto com a mãe e as irmãs fariam uma viagem de carro até o Paraná. Dias depois mandou notícias dizendo que no trajeto ocorrera um acidente e as três não sobreviveram.

                Paulo retornou à São Paulo e o sumiço de Benedita, Maria e Cordélia começou a levantar suspeitas na vizinhança, mesmo com a desculpa dele sobre o acidente na estrada. A falta de confirmação das mortes e dos sepultamentos levou a polícia a iniciar uma investigação junto aos amigos de trabalho dele e logo a informação sobre o poço no quintal foi descoberta.

                No dia 23 de novembro, policiais foram até a casa do suspeito, vasculharam os cômodos e perguntaram sobre o poço. E Paulo não teve outra alternativa senão indicar o local. A polícia chamou o Corpo de Bombeiros para escavar e, então, os corpos foram encontrados, já em avançado estado de decomposição, com as cabeças para baixo. Durante a escavação e já sabendo o que a polícia iria encontrar, Paulo pediu ir ao banheiro e com o mesmo revólver com o qual matou mãe e irmãs, cometeu suicídio. Um dos bombeiros que participou da escavação sem proteção acabou morrendo por contaminação cadavérica meses depois.

                O desejo de viver livremente a sua paixão com Isaltina não foi a única motivação especulada para o “crime do poço”. Jornais chegaram a noticiar que Paulo matou a família ao se encontrar na situação de arrimo permanente. A mãe tinha câncer em uma das pernas. Maria Antonieta era paralítica e tinha epilepsia e a irmã mais nova, Cordélia, sofria de esquizofrenia.

                A repercussão do crime gerou tamanha comoção que o modernista Oswald de Andrade escreveu o “Crime sem castigo”: “Com a violência da censura ancestral, Paulo viu agigantar-se diante dele a família inútil. A psicogênese do crime evidentemente já trabalhava em seu inconsciente. Chegou o momento em que ele gritou ‘não!’ àquela pobre gente, que representava a incompreensão e o tabu das velhas castas e dos superados preconceitos”. A série de cinco artigos, publicada na Folha da Manhã entre os dias 11 e 16 de dezembro, foi um ataque direto ao conservadorismo da sociedade brasileira.

 

TERRA AMALDIÇOADA

                Aquele trecho do centro paulistano, entre a avenida 9 de Julho e a Praça da Bandeira, tem a fama de amaldiçoado. Bem antes do “crime do poço”, o local era usado como pelourinho para punir selvagemente escravos. Alguns morriam de tanto apanhar. Depois das mortes dos Ferreira de Camargo, falou-se muito em histórias de assombrações e aquele pedaço da Capital foi todo demolido para a construção de um corredor de ônibus e, no final dos anos 60 começou a ser construído um edifício de 25 andares que, inaugurado em 1971, acabou incendiado três anos depois, matando 187 pessoas: o Edifício Joelma.

 


Personagens da tragédia: Paulo e na foto abaixo, a mãe e as irmãs Maria Antonieta e Cordélia (fotos da internet)

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