O número de
diagnósticos de câncer de pele no Brasil cresceu de forma expressiva na última
década e acendeu um alerta entre especialistas. Dados compilados pela Sociedade
Brasileira de Dermatologia indicam que os registros passaram de pouco mais de 4
mil casos em 2014 para mais de 72 mil em 2024, um aumento superior a 1.500%. O
avanço revela não apenas maior incidência da doença, mas também desigualdades
históricas no acesso ao diagnóstico e ao tratamento no país.
O levantamento
aponta maior concentração de casos nas regiões Sul e Sudeste, associada à
predominância de população de pele clara e à exposição solar crônica. No
entanto, estados do Norte e Nordeste também registraram crescimento
consistente, como Rondônia e Ceará, indicando que o câncer de pele deixou de
ser um problema restrito a determinadas regiões.
Para o
dermatologista Matheus Rocha, que atua no diagnóstico e tratamento cirúrgico da
doença, parte desse crescimento está relacionada à melhoria dos sistemas de
notificação, especialmente após a padronização nacional dos registros de
biópsias. Ainda assim, ele ressalta que os números também refletem falhas no
acesso ao cuidado especializado.
“Existe um
aumento real da doença, impulsionado por exposição solar sem proteção adequada,
envelhecimento da população e ausência de acompanhamento dermatológico regular.
O principal problema é que o diagnóstico não acontece no mesmo tempo para
todos”, afirma.
A desigualdade
de acesso à saúde é apontada como um dos principais entraves ao diagnóstico precoce.
Dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia indicam que pacientes atendidos
exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde enfrentam dificuldade
significativamente maior para consultar um dermatologista quando comparados aos
usuários da rede privada. Esse atraso impacta diretamente o início do
tratamento e aumenta a complexidade das cirurgias.
Estudos
citados pela entidade mostram que, enquanto em parte do Sul e Sudeste o
tratamento do câncer de pele costuma começar em até 30 dias após a suspeita clínica,
em regiões do Norte e Nordeste o tempo de espera frequentemente ultrapassa 60
dias. “Quanto mais o diagnóstico demora, maior o risco de o tumor avançar e
exigir intervenções mais extensas”, explica Matheus Rocha.
A distribuição
desigual da rede de alta complexidade em oncologia também agrava o cenário.
Informações do Instituto Nacional de Câncer mostram que estados como São Paulo,
Minas Gerais e Rio Grande do Sul concentram a maior parte dos centros
especializados, enquanto unidades da federação como Acre, Amazonas e Amapá
contam com estrutura limitada e ausência de Centros de Assistência de Alta
Complexidade em Oncologia.
É nesse
contexto que iniciativas independentes têm contribuído para reduzir os impactos
da espera por tratamento. Em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, uma ação
conduzida por Matheus Rocha oferece atendimento e cirurgias gratuitas para
pessoas diagnosticadas com câncer de pele que não possuem condições financeiras
de arcar com o tratamento e aguardam vaga na rede pública. A iniciativa tem
absorvido parte da demanda reprimida e evitado a progressão da doença em
pacientes vulneráveis.
Segundo o
dermatologista, muitos dos pacientes atendidos chegam com lesões em estágio
inicial, mas já com histórico de meses de espera. “Grande parte percebe algo
diferente na pele, mas enfrenta dificuldade para conseguir avaliação
especializada. Quando o diagnóstico e a cirurgia acontecem cedo, o tratamento
tende a ser mais simples e com melhores resultados”, afirma.
Os
atendimentos priorizam casos em que a cirurgia é indicada de forma imediata,
evitando agravamentos e a necessidade de procedimentos mais complexos. Entre os
pacientes atendidos estão idosos, trabalhadores rurais, pessoas com longa
exposição solar e indivíduos que confundiram sinais iniciais da doença com
feridas comuns ou manchas benignas.
O projeto é
sustentado com recursos próprios, provenientes de programas de formação médica.
Não há cobrança de honorários médicos pelos procedimentos cirúrgicos e, nos
casos de vulnerabilidade social, todos os custos são integralmente absorvidos
pela iniciativa. O modelo permite a realização contínua das cirurgias e o
acompanhamento dos pacientes tratados.
Especialistas
em saúde pública avaliam que ações desse tipo não substituem o papel do Estado,
mas ajudam a aliviar gargalos, especialmente em regiões com menor acesso a
especialistas. No caso do câncer de pele, a rapidez no diagnóstico e no
tratamento é considerada determinante para o prognóstico e para a redução de
complicações evitáveis.
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