Quem ganha a
eleição é o candidato. A frase, que à primeira vista pode soar como uma
simplificação, encerra uma verdade que a prática política insiste em confirmar:
não há estratégia capaz de sustentar, por muito tempo, um projeto vazio de
substância humana, política e simbólica. O marketing pode potencializar
virtudes, corrigir imperfeições, organizar narrativas. Mas não cria, do nada,
aquilo que o eleitor busca — benefícios, coerência e presença.
A
profissionalização das campanhas eleitorais trouxe ganhos inegáveis. Hoje,
nenhuma candidatura competitiva prescinde de planejamento, pesquisa qualitativa
e quantitativa, definição de públicos, construção de mensagens e domínio das
linguagens midiáticas. O marqueteiro tornou-se peça relevante nesse tabuleiro,
atuando como um estrategista que organiza o discurso, ajusta o tom da
comunicação, sugere agendas, calibra promessas e orienta o candidato diante dos
humores da opinião pública.
Mas há um
limite claro — e intransponível — para essa engenharia. O marketing não
substitui a essência. Pode polir, mas não inventa caráter. Podemos iluminar
trajetórias, mas não construir biografias. Pode até criar momentos de empatia,
mas não sustenta emoções que não sejam óbvias. Em campanhas eleitorais, essa
fronteira costuma aparecer de forma dramática quando candidatos encontrados
“produzidos” revelam-se frágeis diante do improviso, da crítica ou do
confronto.
O eleitor
contemporâneo, mais informado e mais exposto a múltiplas fontes de informação,
desenvolveu uma espécie de radar para detectar artificialidades. Discursos
ensaiados demais, gestos coreografados, frases de efeito desconectadas da
realidade — tudo isso tende a produzir um efeito reverso. Em vez de aproximar,
afastar. Em vez de convencer, despertar desconfiança.
Uma analogia
com produtos de consumo, tão utilizados no passado, mostra-se cada vez mais
conveniente. Candidato não é sabonete. Não é um objeto inerte a ser embalado,
perfumado e distribuído no mercado eleitoral. É um ser humano, com história, contradições,
virtudes e falhas. E é justamente essa dimensão humana que estabelece o vínculo
com o eleitor. A política, afinal, continua sendo, antes de tudo, uma relação
de confiança.
Isso não
significa minimizar o papel do marketing — ao contrário. Um bom profissional de
comunicação política é aquele que compreende essa complexidade. Sua função não
é fabricar um personagem, mas revelar, com inteligência e sensibilidade, o
melhor do candidato. Cabe a ele identificar pontos fortes, atenuar
fragilidades, organizar ideias e traduzi-las em linguagem acessível, sem
deformar a essência do protagonista da campanha.
Esse
profissional precisa atuar com visão sistêmica. O marketing eleitoral não se
resume à propaganda de televisão ou às redes sociais. Envolve posicionamento
estratégico, leitura de cenário, articulação entre discurso e prática,
coerência entre promessa e trajetória. Exige domínio técnico, mas também
percepção política. Não se trata apenas de comunicar, mas de compreender o
ambiente em que se comunica.
Quando essa
integração falha, surgem campanhas dissonantes. De um lado, uma comunicação
sofisticada; de outro, um candidato incapaz de sustentar o que está aqui. O
resultado é previsível: perda de compensação. Porque, no fim das contas, o
eleitor não vota na peça publicitária — vota na pessoa.
As campanhas
mais bem-sucedidas são aquelas em que o marketing e o candidato operam em
sintonia. O discurso não é tão artificial porque nasce de convicções reais. A
linguagem não é um disfarce, mas uma ponte. A estratégia não impõe um
personagem, mas organiza uma identidade já existente.
Em tempos de
hiperexposição digital, essa coerência tornou-se ainda mais decisiva. O
candidato é apresentado o tempo todo — nas entrevistas, nos debates, nas redes
sociais, nos encontros públicos. Qualquer descompasso entre o que diz e o que
tende a ser rapidamente percebido e amplificado. Não há edição que resista à
reprodução cotidiana da incoerência.
Por isso,
slogans e chavões, isoladamente, perdem a força. Podem funcionar como síntese,
como elemento de memorização, mas não substituir conteúdo. O eleitor quer mais
do que frases prontas: busca sentido, direção, consistência. Quer considerar no
candidato alguém capaz de compreender seus problemas e oferecer caminhos
plausíveis.
A boa
comunicação política, portanto, não é uma arte de maquiar a realidade, mas de
organizá-la de forma inteligível e persuasiva. É um exercício de tradução — do
pensamento em linguagem, da proposta em narrativa, da intenção em compromisso
público. E, como toda tradução, depende da fidelidade ao original.
No fim, fica a lição essencial: o marketing pode ajudar a ganhar uma eleição, mas não ganha sozinho. Sem densidade humana, sem proteção e sem coerência, qualquer campanha — por mais sofisticada que seja — corre o risco de desmoronar diante do olhar atento do eleitor. Porque, na política, como na vida, não há estratégia que substitua a verdade de quem se apresenta.
Gaudêncio Torquato é escritor,
jornalista, professor titular da USP e consultor político

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