Para o poeta
Mário Quintana, “nascer é uma possibilidade, viver é um risco e envelhecer é um
privilégio”. E levando em conta essa última afirmação, afinal de contas, todos
os poetas têm suas razões, envelhecer é realmente um privilégio, mas contar com
as memórias que foram guardadas na trajetória de vida, é um privilégio maior
ainda.
Partindo da
ideia de dar visibilidade às pessoas com 60 anos ou mais e suas lembranças,
transformando memórias em arte, nasceu o projeto “Coleção de Instantes: Caderno
de Memórias”, uma iniciativa cultural que propõe transformar lembranças em
narrativas, arte e produção autoral.
Voltado para a
terceira idade, o projeto, que teve início em março deste ano, se transforma em
espaços de escuta, convivência e expressão, valorizando histórias de vida e
fortalecendo vínculos comunitários.
Idealizado
pela professora, escritora e gestora cultural Aline Garcia, o programa nasce
diante de desafios contemporâneos relacionados ao envelhecimento, como a invisibilidade
social da pessoa idosa, o isolamento afetivo e a falta de espaços públicos
dedicados à escuta e à expressão.
“Ao longo dos encontros, os participantes passam a se reconhecer nas histórias uns dos outros, constroem vínculos e vão ganhando confiança para se expressar - não só sobre o passado, mas também sobre o presente”, diz Aline.
Como funciona o projeto
As atividades
acontecem por meio de encontros semanais no Centro de Convivência do Idoso
“Adhemar Moretti Lanza”, no bairro Jussara, além de ações itinerantes em
bairros periféricos, que devem acontecer - ainda sem data marcada - no Umuarama
e São José.
São
trabalhados quatro eixos com os idosos: origem e território; afetos e relações;
trajetórias de vida; e saberes e legados. Juntos, esses eixos atuam diretamente
na promoção do bem-estar socioemocional, no resgate da memória como patrimônio
cultural e no fortalecimento do sentimento de pertencimento.
Ao longo do
processo, os participantes inscritos desenvolvem produções que integram
escrita, oralidade e diferentes linguagens artísticas, como colagem, pintura,
modelagem e música. O resultado são cadernos autorais, verdadeiros
“livros-objeto” que registram memórias individuais e coletivas. Também serão
produzidos cadernos nos bairros atendidos, ampliando o alcance da iniciativa.
Aline comenta que no início do projeto os participantes se expressavam mais pela arte, por meio de desenho, colagem e cores. “Aos poucos, esse processo foi se ampliando para a comunicação e começaram a surgir relatos, memórias afetivas e narrativas construídas com muita sensibilidade. Hoje, há um envolvimento muito forte com o projeto. Eles demonstram curiosidade sobre os próximos encontros, pedem mais tempo de atividade e dizem que aquele momento se tornou um dos mais especiais do dia porque ali conversam, reencontram amigos e exercitam a mente.”
Redescobrindo Araçatuba
Um ponto
interessante que Aline destaca é que à medida que os idosos compartilham suas
experiências, há um redescobrimento da cidade de Araçatuba a partir do olhar de
quem viveu suas transformações ao longo dos anos - suas ruas, seus ritmos, seus
modos de vida.
“Uma das
participantes, por exemplo, contou com alegria o dia em que a rua dela foi
asfaltada, como um marco importante da sua história. São relatos que atravessam
o tempo, conectando passado e presente e revelando diferentes formas de viver e
sentir a cidade. Em muitos momentos, essas memórias aparecem atravessadas por
afetos, contrastes e até divergências”.
Encerramento
O projeto será
encerrado com a festa literária “Memórias em Flor”, no dia 29 de junho, das 14h
às 17h, no Centro de Convivência do Idoso, com exposição dos trabalhos,
apresentações artísticas e participação ativa dos próprios idosos, que assumem
o protagonismo na condução do evento.
A iniciativa é
contemplada pelo edital nº 011/2025 do Fundo Municipal de Apoio à Cultura,
realizada pela Prefeitura de Araçatuba por meio da Secretaria Municipal de
Cultural, com apoio do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Araçatuba.
Sobre Aline
Aline Garcia é escritora, mestre em Estudos Literários, professora, pesquisadora e gestora cultural. Há mais de 15 anos desenvolve projetos de escrita criativa e argumentativa e, nos últimos oito anos, tem se dedicado também à escrita terapêutica, promovendo espaços de escuta, memória e expressão para diferentes públicos, especialmente jovens e pessoas idosas.
(Fotos: Rafael Rodrigues)
Postar um comentário