O Conselho
Federal de Medicina estuda utilizar as notas do Exame Nacional de Avaliação da
Formação Médica (Enamed) como critério para conceder o registro profissional
aos formandos. Para isso, pediu ao Ministério da Educação e ao Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), os
microdados do exame, com a identificação das pessoas que tiraram notas 1 ou 2,
consideradas insuficientes.
O Inep,
responsável pelo avaliação, ainda não respondeu se vai atender ao pedido. Na
terça-feira (20) o instituto divulgou informações sobre cada estudante que
realizou a prova, incluindo dados acadêmicos, notas e respostas do questionário
socioeconômico. Os dados, no entanto, não trazem a identificação dos alunos.
De acordo com
o presidente do CFM, José Hiram Gallo, o resultado da primeira edição do Enamed
foi debatido pela plenária do conselho. "Uma das propostas é fazer uma
resolução para não registrar esses profissionais, mas ainda está em estudo no
nosso jurídico".
O Enamed foi
criado em 2025, para avaliar a formação médica no país, a partir do nível de
proficiência de médicos formados ou no final da graduação. Os resultados
mostraram que cerca de um terço dos cursos tiveram desempenho insuficiente, a
maioria da rede privada ou municipal. A realização do exame é obrigatória e o
resultado pode ser usado no Exame Nacional de Residência (Enare). A prova não
está prevista como requisito para a atuação profissional.
Para o CFM, os
números refletem "um problema estrutural gravíssimo. "Se você vai
abrir uma escola e não tem um hospital universitário preparado para esses
futuros médicos atuarem, não tem que autorizar essa faculdade. Não tem como
você formar um médico se não tiver um hospital-escola, não tem como você fazer
medicina se não tiver um leito ao lado", defende Gallo.
O presidente
do CFM apoia as sanções que o Ministério da Educação vai aplicar às faculdades
com os piores desempenhos, como suspensão de ingresso e diminuição da oferta de
vagas, mas acredita que apenas as unidades com conceito quatro ou cinco
deveriam poder manter suas atividades livremente. Já o MEC considera que as
faculdades com índice a partir de 3 já se mostraram proficientes.
Gallo também
disse que os resultados do Enamed comprovam a necessidade de um exame de
proficiência médica como pré-requisito para o exercício da medicina, a exemplo
do que ocorre com os bacharéis em Direito, que precisam ser aprovados no exame
da Ordem dos Advogados do Brasil para atuar.
Dois projetos para a criação do exame estão sendo avaliados pelo legislativo, um na Câmara dos Deputados e outro no Senado, com tramitações avançadas.
Associação Médica Brasileira
A criação de
um exame de proficiência também é defendida pela Associação Médica Brasileira
(AMB). "Esta não é uma medida contra o egresso de medicina. É uma medida
com finalidade voltada única e exclusivamente à boa prática da medicina e à
segurança dos pacientes", argumenta a associação.
A AMB divulgou
nota manifestando "extrema preocupação" com os números do Enamed,
"que revelam uma realidade gravíssima na formação médica do país". O
documento ressalta que os cursos de medicina hoje são terminais, no Brasil. Ou
seja: basta que a pessoa receba seu diploma de graduação para que consiga obter
o registro profissional com o Conselho Regional de Medicina de seu estado e
começar a atuar.
"Nessas
circunstâncias, equivale dizer que esses 13 mil médicos apontados pelo Enamed
como não proficientes podem, de acordo com a legislação atual, atender
pacientes em nosso país. Isso nos permite afirmar, sem sombra de dúvidas, que a
nossa população atendida por esse contingente de médicos não proficientes
ficará exposta há um risco incalculável de má prática médica", complementa
o texto.
A AMB também
"criticou a expansão desordenada" de cursos de medicina, "muitas
vezes abertas sem infraestrutura adequada, corpo docente qualificado ou
condições mínimas para a formação segura de novos médicos, nem residência
médica."
De acordo com
a associação, isso fica evidente com os resultados do Enamed, já que os piores
resultados foram apresentados por alunos de faculdades municipais e privadas
com fins lucrativos.
"A
questão central não é ampliar indiscriminadamente o número de vagas, mas
assegurar que cada futuro médico tenha formação adequada, sólida e compatível
com as demandas reais do sistema de saúde. Não se trata de formar mais médicos,
mas de formar bons médicos, preparados para atuar no SUS e para responder às
necessidades da população brasileira."
Verdadeiras máquinas caça níqueis
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